domingo, 11 de julho de 2010

Asas - Rodrigo Sinckevicius Martins.

Tive muitos sonhos estranhos, no entanto, poucos sonhos, tais como este, me fizeram levantar da cama à procura de papel e caneta. Eu tinha 14 anos. Basta dizer que não me foi uma fase muito boa.
Caminhava sozinho pela praia. Final de tarde, mal se via alma viva em um raio de muitos quilômetros. Vento, mar e o sol cada vez mais baixo, disputando espaço com a neblina daninha que se espalhava forrando o céu. Do jeito que eu sempre gostei.
Veio a mim um anjo.
Não era parecido nem um pouco com um anjo, mas eu sabia que era. Não era loiro dos olhos azuis, faltava-lhe o aro dourado por sobre a cabeça e nem asas possuía. Magro, curvado, seu rosto apresentava traços tanto indígenas quanto africanos, escondidos em meio a uma juba desgrenhada e de densa barba rajadas ambas de fios brancos. Maltrapilho, usava um palito surrado e uma camisa rota, calças de brim muito gastas e pés descalço sobre a areia.
O velho esfarrapado sorriu ao ver-me. Sorriso sutil, caloroso.
"Por que sofres, menino?"
Não me vem a mente à mente a razão pela qual lhe respondi:
"Medo, meu velho."
"Medo de que, meu menino? Não tens um lar te amparando e o colo de uma família para dar-te ternura e sossego?"
" Tenho. Mas e o resto?"
"Que resto?"
"Tudo. Vejo o mundo se acabar em mortes e crueldades. Vejo crianças trazendo a maldade do berço e pais afogando seus próprios filhos em infernos de mágoa e mutilação. Vejo os homens sofrendo e já sofro de antemão. Vejo a solidão, o desespero, o rancor, a culpa e o vazio de um universo que não ouve a minha revolta, sufocada em meio aos gritos dos desamparados. Que destino terei eu no universo se ele é tão é tão imenso?"
"Pois não es filho do universo? Fazes parte do cosmo, meu menino, das coisas grandes feitas pelas coisas pequeninas. Se es parte de algo que pode resistir a tudo então podes resistir também."
Minhas angústias não se deram por vencidas. Deixei cair os olhos, desanimado.
"Falta-me algo. Algo que deixei de fazer ou de aprender para sobreviver às estradas da vida e superar minhas próprias faltas."
O velho riu-se com espontaneidade.
"Precisas apenas de duas coisas: amor e sabedoria, duas asas robustas, e quando aprender a usá-las e puder se equilibrar nelas ao planar, irás alçar vôos altos, a cima da covardia e da ignorância dos homens."
" Pois é isso o que me falta."
" Besteira," asseverou-se meu anjo, "sabedoria só se adquire com experiências espinhosas ao longo de muitos anjos. Só quem viajou muito sabe quais as estradas que tem buracos! E não se pode dizer que te falta amor se desde o útero, seus próximos o amaram a fim de ensinar-lhe a amar também. Ora, tens bom coração e boa cabeça, não tenhas medo de ser feliz!"
Quedei-me indagado com a declaração do meu interlocutor.
"Não tenho medo de ser feliz!"
"Tens sim, só não o percebe. Tens medo de cair da corda bamba por estar embriagado pelo mel da euforia. Sossega a cabeça, rapaz, as faltas das quais se acusa e se pune só existem dentro dela. As leis do Céu e da Terra não se quebram quando trazes alegria e inocência n’alma. Exemplo eu que em vida nunca fui santo e anjo agora sou."
Trinquei os dentes, sufocando assim a resposta que não me vinha. Mau companheiro, entretanto, não se deu por satisfeito. Pousou a mão calosa em meu ombro e sorriu bondosamente ao me encarar.
"Es apenas uma criança, filho, dê tempo ao tempo para que a semente que plantas com seu estudo e trabalho vire árvore e dê frutos para alimentar seus irmãos e filhos," botou a outra mão no meu peito. "Exercite suas asas e tire o peso do mundo das suas costas para planar cada vez mais alto, porque a felicidade não está no repouso, e sim no trabalho, não é o troféu, mas a corrida que se escolhe pra esticar as pernas em solo firme e batalhando pelo pão justo de cada dia. Pois trate de correr, meu menino, que o mundo não espera por ninguém."
E estendendo suas asas, meu anjo partiu.

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