terça-feira, 27 de julho de 2010

Alguns - Rodrigo Sinckevicius Martins

Alguns vivem para cuidar da terra,
Outros vivem para cruzar o céu,
Alguns lutam ou salvam vidas
E outros unem o homem de terno
E a mulher de véu.

Certas pessoas vivem para trabalhar,
Dando a esta tarefa prioridade máxima,
Os demais dão mais valor ao chão que pisam
E ao ar que tem para respirar.

Alguns vivem para pendurar uma rede
Entre dois coqueiros com vista para o mar,
Outros pintam telas, esculpem pedras e madeira,
Moldam barro com mãos talentosas e bem treinadas
E tocam melodias para tocar o espírito.
Alguns, por outro lado, vivem para fazer farras e festas
E músicas para se dançar.

O trabalho de alguns movimenta a mente,
O ofício de outros é suado e braçal.
Todos fazem parte de um todo
Porém nenhum deles é igual.

Nem todos nós somos pais,
Mas todos nós somos filhos.
Nascemos, é claro, sem saber do medo ou da morte.
Trens pequeninos
Que não vêem o fim dos trilhos.

Nem todos somos velhos,
Mas todos já fomos crianças
Nascemos já pré-dispostos a transformar cada experiência
Em uma preciosa lembrança.

rodrigosinc@hotmail.com

O Mar - Rodrigo Sinckevicius Martins

Nunca sabemos o que a maré vai nos trazer.
O pescador com fé no coração levanta todo dia de manhã e apronta seu barco, sobe até o alto mar e lança sua rede. Alguns dias ele é abençoado com uma pescaria produtiva, redes cheias e em outros só consegue trazer para terra o suficiente para sanar a fome de sua família. Há também os dias em que tudo o que consegue são queimaduras de sol. No entanto ele não falha nem um dia, não importando se está fazendo muito calor, se os ventos estão fortes ou se uma tempestade ameaça desabar. Ele tem fé de que estará em segurança e de que quanto mais se empenhar, mais peixes terá em sua rede.
O pescador sem essa mesma fé olha para o céu antes de colocar seu barco na água. Encara cada nuvem com desconfiança e olha torto sempre que uma onda aparenta avançar mais do que o normal. Não é todo dia que esse pescador sobe o mar. Em conseqüência, é muito improvável que sua rede fique cheia um dia.
A principal diferença entre esses dois tipos é que o primeiro pescador ama o que faz, ama pescar, ama navegar, ama colocar comida na mesa com seu trabalho árduo e portanto sempre terá algo para alimentar sua família.
É bem mais fácil ter fé quando amamos nosso trabalho. Ter fé que dizer, acima de tudo, ter esperança, confiar numa força maior mesmo nos momentos mais críticos e nos deixar levar por algo bem maior do que nós.
Dizem que hoje em dia faz muito sentido ter fé na ciência. É uma crença racional, lógica. Garantia de que nunca seremos desapontados.
Na minha opinião, uma grande baboseira.
Quem tem fé na ciência baseada na nossa percepção do mundo material não tem lá muito apreço pela vida. É o tipo de pescador que acredita que só terá um dia produtivo se for o tempo propício numa determinada época do ano com uma rede de material especial lançada em determinado local do oceano. É o filosofo que tenta desvendar os mistérios da vida presumindo que não haja nada de realmente misterioso, nada que a percepção humana não possa captar. É o estudioso empenhado em descobrir como cada faceta do universo funciona descartando a presença de qualquer influência metafísica.
Nem desconfiam estas pobres criaturas que nada no universo é linear, muito menos a própria vida. A vida não é como uma equação ou uma fórmula, previsível e intelectualizada. A vida é como o mar. Hora calmo, hora revolto, cheio de atividade, ecossistema sustentável e indomável. Alguns se deixam levar por ela, outros nadam contra a correnteza e também existem aqueles que permanecem estagnados no mesmo lugar.
Não temos idéia do que a maré trará no dia seguinte.
Eu tenho fé que ela traz sempre coisas boas para quem está disposto a subir em um barco e aproveitar o dia na água, pescando. Ela nunca traz tudo o que desejamos porque às vezes precisamos nos aventurar em águas mais distantes e profundas para conseguir aquilo de que nos julgamos merecedores, batalhando pelo que queremos para nós e para quem nos é importante.
O mar nos ama tanto que sempre nos trás coisas novas, sempre. Ele não nos dá tudo o que queremos, mas está lá esperando por nós para aproveitarmos um dia de pescaria. Ame o mar que te trouxe a pesca do dia, mas saiba que somente irá aproveitar o melhor dele quando tiver tecido uma boa rede e gastar algumas horas, ou dias, buscando o que realmente procura ou apenas colhendo o que a maré costuma trazer para os que tem fé.
Coisas assim só entende quem de verdade ama e tem fé no mar, e portanto tem amor pela vida e fé em si mesmo.

domingo, 11 de julho de 2010

Asas - Rodrigo Sinckevicius Martins.

Tive muitos sonhos estranhos, no entanto, poucos sonhos, tais como este, me fizeram levantar da cama à procura de papel e caneta. Eu tinha 14 anos. Basta dizer que não me foi uma fase muito boa.
Caminhava sozinho pela praia. Final de tarde, mal se via alma viva em um raio de muitos quilômetros. Vento, mar e o sol cada vez mais baixo, disputando espaço com a neblina daninha que se espalhava forrando o céu. Do jeito que eu sempre gostei.
Veio a mim um anjo.
Não era parecido nem um pouco com um anjo, mas eu sabia que era. Não era loiro dos olhos azuis, faltava-lhe o aro dourado por sobre a cabeça e nem asas possuía. Magro, curvado, seu rosto apresentava traços tanto indígenas quanto africanos, escondidos em meio a uma juba desgrenhada e de densa barba rajadas ambas de fios brancos. Maltrapilho, usava um palito surrado e uma camisa rota, calças de brim muito gastas e pés descalço sobre a areia.
O velho esfarrapado sorriu ao ver-me. Sorriso sutil, caloroso.
"Por que sofres, menino?"
Não me vem a mente à mente a razão pela qual lhe respondi:
"Medo, meu velho."
"Medo de que, meu menino? Não tens um lar te amparando e o colo de uma família para dar-te ternura e sossego?"
" Tenho. Mas e o resto?"
"Que resto?"
"Tudo. Vejo o mundo se acabar em mortes e crueldades. Vejo crianças trazendo a maldade do berço e pais afogando seus próprios filhos em infernos de mágoa e mutilação. Vejo os homens sofrendo e já sofro de antemão. Vejo a solidão, o desespero, o rancor, a culpa e o vazio de um universo que não ouve a minha revolta, sufocada em meio aos gritos dos desamparados. Que destino terei eu no universo se ele é tão é tão imenso?"
"Pois não es filho do universo? Fazes parte do cosmo, meu menino, das coisas grandes feitas pelas coisas pequeninas. Se es parte de algo que pode resistir a tudo então podes resistir também."
Minhas angústias não se deram por vencidas. Deixei cair os olhos, desanimado.
"Falta-me algo. Algo que deixei de fazer ou de aprender para sobreviver às estradas da vida e superar minhas próprias faltas."
O velho riu-se com espontaneidade.
"Precisas apenas de duas coisas: amor e sabedoria, duas asas robustas, e quando aprender a usá-las e puder se equilibrar nelas ao planar, irás alçar vôos altos, a cima da covardia e da ignorância dos homens."
" Pois é isso o que me falta."
" Besteira," asseverou-se meu anjo, "sabedoria só se adquire com experiências espinhosas ao longo de muitos anjos. Só quem viajou muito sabe quais as estradas que tem buracos! E não se pode dizer que te falta amor se desde o útero, seus próximos o amaram a fim de ensinar-lhe a amar também. Ora, tens bom coração e boa cabeça, não tenhas medo de ser feliz!"
Quedei-me indagado com a declaração do meu interlocutor.
"Não tenho medo de ser feliz!"
"Tens sim, só não o percebe. Tens medo de cair da corda bamba por estar embriagado pelo mel da euforia. Sossega a cabeça, rapaz, as faltas das quais se acusa e se pune só existem dentro dela. As leis do Céu e da Terra não se quebram quando trazes alegria e inocência n’alma. Exemplo eu que em vida nunca fui santo e anjo agora sou."
Trinquei os dentes, sufocando assim a resposta que não me vinha. Mau companheiro, entretanto, não se deu por satisfeito. Pousou a mão calosa em meu ombro e sorriu bondosamente ao me encarar.
"Es apenas uma criança, filho, dê tempo ao tempo para que a semente que plantas com seu estudo e trabalho vire árvore e dê frutos para alimentar seus irmãos e filhos," botou a outra mão no meu peito. "Exercite suas asas e tire o peso do mundo das suas costas para planar cada vez mais alto, porque a felicidade não está no repouso, e sim no trabalho, não é o troféu, mas a corrida que se escolhe pra esticar as pernas em solo firme e batalhando pelo pão justo de cada dia. Pois trate de correr, meu menino, que o mundo não espera por ninguém."
E estendendo suas asas, meu anjo partiu.