Já se sentiu em um corredor escuro com várias portas ao longo de paredes de pedra fria decoradas com um papel de parede muito brega? A única fonte de luz está em sua mão; uma lanterna, uma lamparina, uma vela, mas não é forte o bastante para enxergar o final do corredor. Está escuro demais. Imagine então placas de ouro, letras floreadas e gravuras chamativas atraindo sua atenção para a maioria das portas, mas você sente um cheiro muito ruim e escuta ruídos sinistros vazando de detrás de quase todas. Situação difícil, não acha?
Vislumbre então várias estátuas, bustos e pinturas adornando os pedaços da parede que sobram. Pensadores, catedráticos, magistrados, governantes, patriarcas, figuras de grande imponência e importância histórica. Elas fazem com que você se sinta com a palavra FRACASSADO tatuada na testa. São todos exaltados e retratados como se tratassem de imagens de imortais e poderosos deuses. Eu olho para eles e só vejo fantasmas. Das palavras inscritas em seus pedestais e molduras, repetidas como frases de efeito que marcaram as épocas em que viveram e os lugares por onde passaram, eu só entendo ecos roucos insinuando que são os Grandes Nomes e as Grandes Mentes – notem, não os Grandes Homens e Mulheres – que entram para a história.
Os verdadeiros deuses, seres divinos cujas forças se manifestavam através dos elementos da natureza e pelas facetas mais nobres da humanidade, foram mortos pelos homens cujos olhos de pedra e tinta nos encaram agora.
E a única fonte de luz disponível está nas suas mãos.
Em meio a toda essa opressão, temos vontade de desistir, andar em marcha ré, quebrar tudo o que estiver em nosso alcance ou nos largarmos em um canto e chorar até que o chão engula de uma vez.
Nesse estado de desespero é muito fácil se deixar levar por palavras sem pé nem cabeça, ser seduzido por qualquer babaquice e imitar figuras ridículas na tentativa de encontrar uma identidade para si. É fácil se iludir. Entramos em qualquer porta. Escancaramos uma por uma e ficamos deprimidos ao depararmos com apenas mais escuridão.
Mas a única luz no recinto está em suas mãos. E de mais ninguém.
Não podemos ver o final do corredor assim como não conseguimos prever nosso próprio futuro, mas as portas estão disponíveis em toda a extensão de todos os corredores atrás de cada porta, como um labirinto. É facílimo se perder num labirinto, porém o objetivo de uma construção desse tipo é justamente se achar. Nenhuma é igual à outra, mas todas elas, tanto a de papelão quanto a de ferro, estão abertas. Independente do que todos digam e do que está escrito nos pedestais do Olimpio de almas penadas, não existe tempo limite para escolher nenhuma delas contanto que se tenha coragem, sabedoria e amor para ir com a escolha até o fim, ainda mais porque ficar estagnado em um meio a portas e imagens não adianta coisa alguma e nada nos impede de dar meia volta e tomar um caminho diferente.
É de enlouquecer qualquer um.
Somos máquinas, por acaso? Somos mais como as árvores, que crescem sempre em direção ao céu e nos aprofundamos cada vez mais no solo em que nascemos. Ninguém pode dizer a uma árvore quanto tempo ela tem para atingir sua maturidade nem quando ela tem que florescer ou dar frutos e muito menos estimar o quanto ela vai viver. Ninguém tem esse controle.
Pode-ser apenas cuidar dela com carinho, ajudá-la a se sustentar até ter um tronco forte para se manter um pé e, mesmo que o tempo esteja seco e o solo fraco, nunca desistir dele. Precisamos de terra, de água e principalmente de sol para nos nutrir.
A luz que carregamos é um fragmento daquilo que nos foi presenteado pelo nosso sol, seja ele quem for. Com tanto que tenhamos os pés em contato com o chão e a luz sempre conosco, não há quem nos derrube. É necessário um grande trabalho para derrubar uma árvore que cresceu até atingir seu apogeu. Um fantasma, por exemplo, não conseguiria.