Este é meu último texto como aluno da Etec PJ. Também pode ser minha única herança real para aqueles que ocuparão o meu lugar. Não se trata de uma carta de suicídio nem uma declaração melosa, mas de uma despedida. Um depoimento, relato de meus pensamentos no meu último dia real de aula.
Há três anos, entrei no PJ sem nada a perder e nenhuma garantia de sucesso, assim como uma penca de moleques e garotas da minha idade que provavelmente deviam ter planos muito mais ambiciosos do que os meus. Fiz alguns amigos, colecionei desavenças, descobri que era possível trabalhar e estudar mais duro do que eu já fazia e que ser uma pessoa dedicada não impede ninguém de ter uma vida modestamente normal – antes me julgava um workholic e um anti-social.
Estes três anos poderiam ter se passado por sonho não fosse alguns relicários: um conjunto de peças surradas de uniforme escolar, fotos ridículas e constrangedoras até certo ponto, uma escultura de uma rosa-dos-ventos em imitação de pedra, uma viola de três cordas feita de restos de madeira e pregos, um apagador de lousa gigante que eu mesmo projetei e contruí e pilhas de livros e páginas e mais páginas de anotações. Passou muito rápido, rápido demais. Parece ontem que acordei para ir ao meu primeiro dia de aula do Ensino Médio, de uniforme novo, óculos retos, cabelo bem penteado, rosto limpo, mas coberto de espinhas, armado de desconfiança e muito nervoso. Todos sentimos isso naquele dia.
Agora, depois de toda a empolgação da despedida, me vejo tomado por uma profunda sensação de vazio. A solidão é muito diferente do alívio que eu esperava sentir. Quando pensei em uma metáfora para descrever isso, a primeira imagem que me veio à cabeça foi encruzilhada (os cristão mais ortodoxos que me perdoem); um lugar onde escolhemos o próximo rumo a tomar. Todavia, uma fronteira expressa melhor o que quero dizer. Uma fronteira guardada por um muro bem alto.
Abandonamos para sempre o mundo que conhecemos. Sabemos para onde vamos, onde temos de estar, temos planos, perspectivas, contudo não sabemos o que nos aguarda. Só o que podemos fazer é pedir sorte a Deus e nos valer de todo o conhecimento assimilado, muito pouco por sinal.
Não fiz nem metade das coisas que queria ter feito. Deixei de dizer muitas palavras que tinha em mente. Não me relacionei da maneira que queria com as mulheres por quem tinha desejo e afeto e me impedi de ir à desforra quando o queria era botar a casa abaixo. Ouvi muitos desaforos e absurdos em silêncio e errei demais.
Não cometam os erros que cometi e façam as coisas que deixei de fazer. Saboreiem cada mancada; em breve elas não serão tão fáceis de perdoar quanto agora. Se não puderem conseguir perdão por elas, encontrem forças perdoar e aceitar a si mesmo como seres humanos falhos, porém funcionais. Bebam, abracem, beijem, farreiem, estudem, sonhem, trabalhem para concretizar seus sonhos e criem juízo pra que nenhum dos frutos do seu trabalho se perca.
Sejam verdadeiros sempre. As mentiras podem ficar quando você se for, mas as verdades são tudo o que levará desta vida além de boas lembranças e algumas recordações mais amargas. Aqui vocês enterram três anos de suas vidas. Jurei a mim mesmo que não sentiria saudades e descobri que estava amargamente enganado.
Descobri que me doía a perspectiva de talvez jamais encontrar novamente aquelas pessoas com quem convivi por tanto tempo. Talvez esqueçam de mim e, caso nos cruzemos na rua um dia, não iremos nos reconhecer ou recordar os nomes uns dos outros. Talvez isso aconteça porque guardamos nossos colegas no memória como os conhecemos e é desta maneira que sempre serão para nós.
Hoje sou um homem formado, de voz grossa, barba rala, óculos tortos e cabelos rebeldes. Pretendo trabalhar com afinco e estudar cada vez mais, entretanto, por mais longe que vá meu pensamento, meu coração sempre será marcado por tudo o que se passou do lado da fronteira no qual ficou a minha adolescência, enjaulada para sempre em uma das celas do Carandiru.
É na fronteira da minha vida, sozinho em meio à multidão, escrita em uma camiseta velha do colégio, que deixo minha carta de despedida. Posso estar zarpando para mares desconhecidos, mas as pegadas que deixei na areia, onda nenhuma vai apagar.
Ass.: Rodrigo Sincevicius Martins,
o Gigante, o Urso, o “Rodrigation”, o Marreco.
Formado no ano de 2010, no Ensino Médio, na Etec Parque da Juventude,
3° Ano A, nº33.
P.S.: Rogo aos meus antigos professores e queridos amigos, que façam um ínfimo esforço para que esta herança seja esquecida no tempo, pois, até meus artigos serem publicados ou meus ossos serem fossilizados – o que vier primeiro -, esta é a única coisa que, além de memórias, deixo para trás.
São Paulo, 26/11/2010
sinckeviciusthunderdrums@gmail.com
Há três anos, entrei no PJ sem nada a perder e nenhuma garantia de sucesso, assim como uma penca de moleques e garotas da minha idade que provavelmente deviam ter planos muito mais ambiciosos do que os meus. Fiz alguns amigos, colecionei desavenças, descobri que era possível trabalhar e estudar mais duro do que eu já fazia e que ser uma pessoa dedicada não impede ninguém de ter uma vida modestamente normal – antes me julgava um workholic e um anti-social.
Estes três anos poderiam ter se passado por sonho não fosse alguns relicários: um conjunto de peças surradas de uniforme escolar, fotos ridículas e constrangedoras até certo ponto, uma escultura de uma rosa-dos-ventos em imitação de pedra, uma viola de três cordas feita de restos de madeira e pregos, um apagador de lousa gigante que eu mesmo projetei e contruí e pilhas de livros e páginas e mais páginas de anotações. Passou muito rápido, rápido demais. Parece ontem que acordei para ir ao meu primeiro dia de aula do Ensino Médio, de uniforme novo, óculos retos, cabelo bem penteado, rosto limpo, mas coberto de espinhas, armado de desconfiança e muito nervoso. Todos sentimos isso naquele dia.
Agora, depois de toda a empolgação da despedida, me vejo tomado por uma profunda sensação de vazio. A solidão é muito diferente do alívio que eu esperava sentir. Quando pensei em uma metáfora para descrever isso, a primeira imagem que me veio à cabeça foi encruzilhada (os cristão mais ortodoxos que me perdoem); um lugar onde escolhemos o próximo rumo a tomar. Todavia, uma fronteira expressa melhor o que quero dizer. Uma fronteira guardada por um muro bem alto.
Abandonamos para sempre o mundo que conhecemos. Sabemos para onde vamos, onde temos de estar, temos planos, perspectivas, contudo não sabemos o que nos aguarda. Só o que podemos fazer é pedir sorte a Deus e nos valer de todo o conhecimento assimilado, muito pouco por sinal.
Não fiz nem metade das coisas que queria ter feito. Deixei de dizer muitas palavras que tinha em mente. Não me relacionei da maneira que queria com as mulheres por quem tinha desejo e afeto e me impedi de ir à desforra quando o queria era botar a casa abaixo. Ouvi muitos desaforos e absurdos em silêncio e errei demais.
Não cometam os erros que cometi e façam as coisas que deixei de fazer. Saboreiem cada mancada; em breve elas não serão tão fáceis de perdoar quanto agora. Se não puderem conseguir perdão por elas, encontrem forças perdoar e aceitar a si mesmo como seres humanos falhos, porém funcionais. Bebam, abracem, beijem, farreiem, estudem, sonhem, trabalhem para concretizar seus sonhos e criem juízo pra que nenhum dos frutos do seu trabalho se perca.
Sejam verdadeiros sempre. As mentiras podem ficar quando você se for, mas as verdades são tudo o que levará desta vida além de boas lembranças e algumas recordações mais amargas. Aqui vocês enterram três anos de suas vidas. Jurei a mim mesmo que não sentiria saudades e descobri que estava amargamente enganado.
Descobri que me doía a perspectiva de talvez jamais encontrar novamente aquelas pessoas com quem convivi por tanto tempo. Talvez esqueçam de mim e, caso nos cruzemos na rua um dia, não iremos nos reconhecer ou recordar os nomes uns dos outros. Talvez isso aconteça porque guardamos nossos colegas no memória como os conhecemos e é desta maneira que sempre serão para nós.
Hoje sou um homem formado, de voz grossa, barba rala, óculos tortos e cabelos rebeldes. Pretendo trabalhar com afinco e estudar cada vez mais, entretanto, por mais longe que vá meu pensamento, meu coração sempre será marcado por tudo o que se passou do lado da fronteira no qual ficou a minha adolescência, enjaulada para sempre em uma das celas do Carandiru.
É na fronteira da minha vida, sozinho em meio à multidão, escrita em uma camiseta velha do colégio, que deixo minha carta de despedida. Posso estar zarpando para mares desconhecidos, mas as pegadas que deixei na areia, onda nenhuma vai apagar.
Ass.: Rodrigo Sincevicius Martins,
o Gigante, o Urso, o “Rodrigation”, o Marreco.
Formado no ano de 2010, no Ensino Médio, na Etec Parque da Juventude,
3° Ano A, nº33.
P.S.: Rogo aos meus antigos professores e queridos amigos, que façam um ínfimo esforço para que esta herança seja esquecida no tempo, pois, até meus artigos serem publicados ou meus ossos serem fossilizados – o que vier primeiro -, esta é a única coisa que, além de memórias, deixo para trás.
São Paulo, 26/11/2010
sinckeviciusthunderdrums@gmail.com